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A aluna Joana Seabra, do 8º 1ª, ganhou o primeiro prémio de um concurso literário a nível nacional, organizado pelas Edições Asa para alunos do 7º ano. O prémio foi uma viagem à Eurodisney, onde a Joana foi acompanhada de três familiares. Este foi o trabalho vencedor: Um Labirinto de Perigos Finalmente, chegaram as férias de Verão e para Mig o primeiro dia estava a ser muito especial. Kamilla, sua namorada, passava o dia consigo em casa de Carina. Todos se estavam a divertir, até que André sugeriu irem dar um passeio. Foram perguntar aos pais de Carina se queriam ir com eles. Ivone Carriça, a mãe de Carina, não estava, mas Rodrigo sim. Este aceitou satisfeito. Mal sabiam eles que aquele passeio era apenas o início de uma grande aventura. Tudo começou quando Mig foi buscar um boné, pois o Sol estava quente. Dentro do boné, muito bem escondido, estava um pequeno pedaço de cartão... era uma peça de puzzle. Quando Mig regressou, Carina, Rute, Isabel e André calcularam pelo seu olhar enigmático e pela sua expressão, alegre mas ansiosa, o que tinha acontecido. Rodrigo, surpreendeu aqueles olhares, de uns para os outros, e também desconfiou. Baixou os olhos; calculou que deviam ter descoberto a peça de puzzle que Álvaro lhe enviara, para ele por sua vez a colocar ao alcance do Miguel, na devida altura. Quando chegaram do passeio e Kamilla e Rodrigo se afastaram, dirigiram-se para a pequena cabana, perdida no fundo do jardim, de que Mig tanto gostava e reuniram-se à volta da peça. Desta vez, não trazia nenhuma mensagem. Apenas o desenho de uma planta que eles nunca tinham visto. - Mas o que é isto? - interrogava Rute. - Cá para mim é uma planta, embora eu nunca tenha visto nenhuma assim e... - Eu também não - interrompeu Carina - mas vamos investigar. Pode ser uma pista importante para descobrirmos o paradeiro do pai do Mig! Mig não conseguia dizer nada, olhava para a peça de puzzle com esperança e carinho, mas também com tristeza e saudade. Aonde estaria o seu pai? Entretanto, a muitos quilómetros dali, Álvaro Pereira também pensava no seu filho, Miguel. Num impulso, tinha pedido ao seu amigo Rodrigo para também lhe fazer chegar aquela última peça de puzzle. Desta vez, a pista era sobre o seu próprio paradeiro. Arrependera-se quase de imediato; sabia que ainda não podia encontrar-se com o seu filho mas ... a saudade era imensa! De qualquer forma, a pista também não era fácil de descobrir. E mesmo que o Mig a decifrasse de pouco lhe valeria; como o encontraria? era demasiado difícil. Não, decididamente, Mig nunca chegaria até si, concluiu num misto de alívio e tristeza. Mal sabia Álvaro o quão estava enganado. Miguel não queria saber se o pai estava apenas a dois passos ou a quilómetros e quilómetros de distância! Se bastariam os trocos que lhe restavam na carteira ou, se para o encontrar, precisaria de todo o dinheiro do Mundo! Se só precisaria pular a cerca do jardim ou se teria de enfrentar as maiores dificuldades, os desafios mais perigosos! Só sabia que queria ir ter com ele, custasse o que custasse. A sua amiga Carina também estava determinada em fazer com que os dois se encontrassem. Procurava informações sobre a planta da peça de puzzle, dia e noite, mas nada. Isabel, Rute, André e principalmente Mig vasculhavam em todas as fontes de informação ao seu alcance, desde bibliotecas a computadores, passando pelos livros que tinham em casa, até os manuais escolares dos pais e dos avós! Mostraram inclusive à professora de Ciências a peça e perguntaram-lhe se conhecia aquela planta. Os resultados foram desanimadores: - Não, não faço ideia de que planta seja essa, mas porquê esse súbito interesse pela botânica? Não lhes interessava responder. Murmuraram algumas desculpas atabalhoadas: - Oh, não é por nada em especial, "stôra"... Queremos melhorar as nossas notas a Ciências ... Sabe que nós sempre gostámos de plantas... - E a professora lá fingiu que ficou convencida e não insistiu, pois gostava daquele grupinho, até do estouvado André. Para além disso, estava certa de que se trataria decerto de uma qualquer brincadeira inocente. Que inocente estava ela a ser! Tentavam não perder o ânimo, sabiam que tinham prometido a Mig ajudá-lo a encontrar o pai e era o que fariam, mas não estava a ser nada fácil! Foi por acaso que descobriram! a própria Carina nem queria acreditar. Tinha prometido ajudar uma colega com num trabalho de Geografia, que devia ser entregue depois das férias. O tema do trabalho parecia tudo menos interessante: "À descoberta da América do Sul". E Carina, procurando dissimular o seu desinteresse e a sua tremenda vontade de voltar para casa e retomar a sua investigação, lá ia folheando livro após livro. Até que subitamente, o seu coração começou a bater rapidamente e o sangue aflorou-lhe à cara. Um exclamação de espanto assomou-lhe aos lábios mas conteve-se no último momento. Que tremenda coincidência! Requisitou de imediato aquele livro e, logo que pôde, tomou o autocarro de regresso a casa. Entrou de rompante na cabana ao fundo do jardim fazendo Miguel dar um salto. - Mig, descobri, descobri, o teu pai está aqui, na Amazónia!... Mig não assimilou logo a informação, estava a registar no seu cérebro uma palavra de cada vez, mas quando percebeu... Miguel quase sufocou Carina num enorme abraço. - Não pode ser!? Mas, como... como descobriste? Oh, uau, como descobriste Carina?! - Mig não sabia se havia de gritar, rir, pular... chorava de excitação. Carina era fantástica! - Foi numa biblioteca, que fica um pouco longe daqui e onde ainda não tínhamos ido. Descobri o desenho da "mesmíssima" planta que está na peça, neste livro que fala sobre a Amazónia. Mas ainda há mais! Estive a ler atentamente esta parte do livro e segundo o que aí está escrito, essa espécie de planta apenas existe numa determinada zona da Amazónia, onde o clima é particularmente quente e húmido. - Nunca te poderei agradecer o suficiente, Carina. Vamos já telefonar à Isabel, à Rute e ao André. Estes tiveram reacções bastante diferentes: Isabel deu vivas e fartou-se de berrar; o André ficou tão espantado, que caiu da cama abaixo (já estava deitado, o dorminhoco do rapaz). Mas a reacção de Rute, essa sim foi muito diferente. Sensata, disse simplesmente: - Fico contente por ti Mig, mas será que adiantamos muito? Se o teu pai está na Amazónia, como poderás ir lá ter com ele? Foram obrigados a admitir que Rute tinha razão. A Amazónia ficava a muitos milhares de quilómetros de distância. E era enooorme! A mancha verde que ocupava no mapa parecia-lhes agora assustadoramente grande. E algumas zonas nunca foram sequer exploradas pelo Homem! Decidiram ir dormir. Como se costuma dizer, a noite é boa conselheira. Talvez de manhã tivessem alguma ideia. Mig, que tinha ficado tão contente quando soube do paradeiro do pai, viu as suas esperanças desvanecerem-se em fumo. Como poderia ir ter com o pai? Não podia partir para a selva assim, sem mais nem menos; e uma vez lá, como encontraria o pai? A selva é um labirinto complicado. É impossível andar em linha recta, é extremamente difícil orientarmo-nos e se nos embrenharmos pelo mato dentro, quem nos garante a nós, pobres e insignificantes seres humanos que conseguimos sair de lá? Porquê tão longe? Porquê tão inacessível? Porquê pai? Mig, estava agora ainda mais triste do que quando não sabia aonde é que estava o pai. Carina, com o seu optimismo incorrigível e a sua determinação ilimitada, não pensava assim. Tinha prometido a Mig que ia encontrar o pai dele. Na sua opinião o mais difícil já estava feito; não ia agora perder a esperança. Deitou-se a pensar no problema e na manhã seguinte, o seu ânimo estava ainda mais redobrado. Embarcariam no próximo avião que partisse para a Amazónia, desse por onde desse. O único problema era convencer os pais, principalmente Ivone, que parecia andar desconfiada. Carina porém, não queria saber e foi partilhar a sua ideia com Mig. Este não estava muito convencido, mas Carina não lhe deu importância. Convocou uma reunião e lá apareceram Isabel, André (será que não tinha reparado que tinha a camisola das avessas) e Rute (com uma expressão capaz de desanimar toda a gente que não fosse tão entusiasta como a sua amiga Carina). Esta, com um ar solene, dirigiu-se-lhes: - Bem, tive uma ideia! Já todos sabemos onde está o pai do Miguel. Agora a questão é: como encontrá-lo na selva? Silêncio. - Bem, eu estive a pensar e tenho uma ideia... - Carina fez uma pausa intencional, para aumentar o suspense e provocar alguma reacção nos seus amigos... mas nada, continuavam todos de olhos postos no chão, mais mudos que pedras. Num tom quase irritado, Carina prosseguiu: - Lembrei-me e não sei, nem me interessa, como o vou fazer. Eu, Mig e quem quiser vir connosco, embarcará no próximo avião que partir para a Amazónia. Uma vez lá, logo se vê. - Isso é que é a ideia? - perguntaram todos em uníssono e, acto contínuo, começaram a rir em sonoras gargalhadas. Com ou sem ideia, o ambiente ficou bem mais leve. Isabel pôs-se de pé e sentenciou: - Eu alinho, dêem-me cinco minutos para ir falar com os meus pais e preparar a minha mala e depois voltarei para aqui para ir com a Carina e com o Mig para a selva. - Por falar nisso... - recomeçou Rute pausada e sensatamente - já falaste nessa extraordinária aventura aos teus pais, Carina? Não, Carina ainda não tinha dito nada aos pais. Na verdade, já tinha pensado nisso, mas como havia de convencê-los a deixá-la empreender esta extraordinária aventura? - Não Rute, reconheço que não sei o que lhes hei-de dizer. - Talvez, toda a verdade... Dirigiram-se para casa, encontraram Ivone a preparar as aulas sobre armas ligeiras que iria dar no dia seguinte. Carina sabia que não tinha muito tempo, porque a mãe partiria para a escola de formação de agentes policiais, onde ora trabalhava, dentro de meia hora. Ivone fechava-se muito em relação ao seu trabalho, Carina tentava não o demonstrar, mas sentia-se um pouco triste com aquilo tudo. Pressentia que o pai também tinha os seus segredos; ela própria escondia a verdadeira história da vida de Miguel. Sentia que todos aqueles silêncios estavam a destruir a sua família. Mas agora chegara para si a hora de contar a verdade, por muito estranha que esta fosse. Seguida pelos seus amigos, entrou resolutamente para casa. - Mãe, pai... - Carina não sabia como começar, pelo que decidiu ir directa ao assunto - eu e o Mig decidimos ir à selva Amazónica à procura do pai dele. - Desculpa, Carina, mas não estou a perceber - replicou Ivone, numa voz perigosamente controlada. - Mãe, a história do Miguel não é aquela que tu conheces - no olhar perscrutador do pai Carina adivinhou algo mais do que simples incredulidade - bem, nós sabemos que o Miguel vivia com o pai e que a sua mãe morreu. Viviam bem, numa boa casa e o Miguel tinha tudo o que queria, até ao dia em deixou literalmente de existir. Rodrigo ficou espantado e apreensivo. Percebeu que a pista contida na peça do puzzle tinha sido descoberta, o que nunca antevira como possível. E muito menos pudera imaginar que aqueles miúdos tivessem energia suficiente para configurarem sequer a hipótese de partirem para a Amazónia e que tivessem coragem para lhe contarem o que tinham descoberto: A verdade! Aquela verdade que ele tinha encoberto durante tanto tempo! Em suma, tinham subestimado aqueles miúdos, apenas por serem miúdos, coisa que nunca se deve fazer. Carina prosseguiu cada vez mais ciente de que pelo menos o seu pai sabia bem mais do que pudera imaginar: - No dia em que atacaram as torres, em Nova Iorque, o Miguel chegou a casa e quem lá estava, não era o pai, nem as suas empregadas, mas sim uma outra família, que ele não conhecia e que lhe soube apenas dizer que tão pouco o conheciam ou alguém da sua família. Na escola também não o deixaram entrar. Diziam que não havia ninguém ali inscrito com o seu nome nem nunca tinham visto o seu rosto. Foi a restaurantes, cafés onde tinha estado, falou com professores, mas a resposta era sempre a mesma: "Não, eu não te conheço". Mig viveu a mais profunda das angústias. Tornara-se numa pessoa sem nome, sem rosto, sem história, sem parentes, sem amigos, sem conhecidos. Foi no mais profundo desespero que me encontrou, seguindo uma mensagem do pai. Contou-me a sua história e aqui ficou, em nossa casa, até hoje. Ivone não duvidou um único momento de que a sua filha contava a verdade; pelo menos a verdade que ela conhecia, mas havia algo que não batia certo. Porquê eles? Porquê aquele olhar fatalista do marido que denunciava um segredo de cuja existência há muito suspeitava? e porque é que lhe tinham escondido tanta coisa durante tanto tempo? Olhou para o marido que tentava, em vão, esconder aquele ar de culpa. Estava um pouco zangada com ele por não lhe ter contado a verdade, a si, sua mulher, sua companheira de tantos anos. Dissera-lhe uma vez: - deixa-me ser a tua confidente - nesse dia percebeu que quase lhe contou. Mas no último momento refugiara-se novamente na sua concha de silêncio. Foi então que uma dúvida a assaltou: - Como se chama o pai de Mig? - Álvaro Pereira. Rodrigo percebeu de imediato pela expressão de Ivone que Carina tinha feito asneira e das grandes. Carina também ficou um pouco incomodada com a cara que a mãe tinha feito quando ouviu o nome do pai do Mig. Será que o conhecia? Será que o pai do Mig era algum cadastrado? E se tivesse sido a sua própria mãe a prendê-lo? Carina começou a ficar nervosa. Os seus amigos também tinham percebido e acorreram a socorre-la. - Carina, não é Álvaro, é Alberto.- adiantou logo Mig. - Mas que confusões que tu fazes, Carina! - replicou Isabel. - Chega, meninos, não interessa o nome - Ivone tinha-o visto demasiadas vezes nos registos da Interpol para se esquecer dele - A seu tempo, eu mesma irei à Amazónia buscar o pai de Miguel. - Nem pensar! - gritou Carina - Quer dizer, o Mig e o pai estiveram tanto tempo sem se verem, não vais fazê-los esperar mais, pois não mãe?! - Carina, tal como acabaste de dizer, o Miguel e o pai já estiveram tanto tempo sem se ver, que mais um pouco não fará mal nenhum. - Por favor, não, senhora Carriça, não. Tenho mesmo saudades do meu pai. Não quero passar mais tempo longe dele, irei à Amazónia consigo. - Está decidido meninos, não insistam - E com isto, Ivone saiu porta fora. - Deixa estar Mig, nem que tenhamos de ir a pé para o aeroporto, nem que tenhamos de entrar clandestinamente no avião, nada nem ninguém nos deterá. - Desculpem, mas não vão fazer isso... - Rodrigo falou finalmente. Todos deram um salto. Quase que se esqueceram que o pai de Carina estava ali. - Pai, temos de o fazer. Há aqui alguma coisa que não está bem. - Pois não, e essa coisa é vocês desobedecerem deliberadamente à tua mãe, Carina. Para além de que acabaste de dizer um chorrilho de disparates que não são dignos de uma menina que se julga já muito adulta. Julga que é fácil entrar num avião, ainda para mais nos tempos que correm, com as reforçadas medidas de segurança? E onde tens tu o passaporte? Sabes por acaso se precisas de vistos para entrares no Brasil ou em qualquer dos outros países onde se situa a Amazónia? E as vacinas que são necessárias para não se adoecer na selva? - Carina tinha as orelhas vermelhas de ouvir tamanho raspanete. Mas com a determinação que nunca lhe faltava decidiu jogar ainda uma última carta - Pai, isto tem alguma coisa a ver com... a Matriz C, não tem? O efeito foi imediato; Rodrigo estacou de boca aberta, sem mais palavras, como se a garganta tivesse abruptamente secado. Mas como é que Carina adivinhara? Rodrigo percebeu então que alguma coisa tinha de ser feita definitivamente. Que era altura de todos enfrentarem a verdade de frente, custasse o que custasse. - Tem tudo a ver... - murmurou - Bem, tenham calma, eu irei falar com a mãe. E logo vemos o que se pode arranjar. Tenho a impressão que iremos todos fazer uma viagem até à Amazónia. - Ainda Rodrigo mal tinha acabado de falar e já quase morria sufocado com um abraço da sua filha, logo secundada por todos os seus amigos. Miguel não conseguia conter uma lágrima no canto do olho. Rodrigo olhou-o com comiseração. Sim, talvez tivesse chegado a altura de Miguel e o seu amigo Álvaro se encontrarem novamente. Afinal, a Matriz C servia para o Bem e não para fazer as pessoas infelizes. Um mês depois tinham desembarcado no aeroporto de Manaus, em plena Amazónia. Ivone prometera empreender a viagem como amiga e não como agente policial. Na verdade, aquele assunto estava fora da sua área de jurisdição, dizia para si própria, tentando apagar um pequena ponta de mal estar na sua consciência. Depois da árdua tarefa de contratar um guia disposto a levá-los a sítios que não constavam dos habituais percursos turísticos, internaram-se selva dentro. Ivone e Rodrigo conferenciavam frequentemente com o guia e davam-lhe instruções precisas o que deixava os miúdos espantados; julgavam-se muito espertos mas afinal os pais da Carina sabiam muito mais do que alguma vez supuseram . À medida que avançavam pela selva o nervosismo de todos ia aumentando. Não obstante a excitação não podiam deixar de reparar e de se extasiar com tudo o que os rodeava: o Sol mal conseguia penetrar entre as altas e esbeltas árvores, que pareciam competir para ver qual delas é que conseguia subir mais e mais alto. Amiúde aproximavam-se de um dos braços do rio Amazonas, por vezes correndo velozmente, outras vezes tão sossegado que apetecia dar um mergulho, pois o calor era insuportável; mas todos sabiam porém que isso seria uma parvoíce, pois um mergulho no Amazonas poderia ser fatal. Embora parecesse inofensivo, o rio escondia muitos perigos, desde piranhas a jacarés. Longas serpentes deslizavam entre os ramos, para espanto de todos. Que diriam os colegas na escola, quando lhes contassem que estiveram a poucos metros das gigantes anacondas? A única que não estava a gostar nada daquilo era Rute. Só com muito custo é que conseguiu abafar uns valentes gritos, cada vez que bandos de araras e papagaios de inúmeras cores levantavam voo ou com os gritos ensurdecedores dos macacos, ou com os rugidos longínquos de um jaguar; um dia, e ao aperceber-se que um inofensivo lagarto escolhera o seu saco-cama, (negligentemente aberto numa clareira onde tinham pernoitado) para se esticar ao sol, quase desmaiou de medo. E pensar ela que nem na televisão gostava de ver aqueles bichos! Andaram durante o que lhes pareceu uma eternidade, até que a expedição estacou. Ivone e Rodrigo com uma expressão reservada, começaram a remexer umas plantas que se encontravam ali perto. - Carina, vê, são as plantas desenhadas na peça! - sussurrou Mig com um brilhozinho no olhar. Por fim, as plantas revelaram um buraco no chão e com um sorriso de triunfo, a mãe de Carina avançou decididamente. - Vamos - ordenou Rodrigo apontando a abertura aos jovens - entrem. - Eu não desço por aí - afirmou prontamente Rute. - Se a minha mãe pode descer por ali então nós também podemos. - Deixa-me ir à frente Carina, está bem?- pediu Miguel. E com isto desapareceu naquele buraco negro, seguido pelos outros. O que lhes tinha parecido uma pequena abertura revelou-se afinal a entrada de um túnel longo, frio e húmido cujo fim não se avistava. A viagem, em constantes tropeções nas irregularidades do solo e com frequentes esfoladelas nas paredes ásperas que os ladeavam não se revelou muito agradável. Quando, para grande alívio de todos (principalmente de Rute, que foi o percurso todo a lamuriar-se) se aperceberam da claridade bem na sua frente, foram surpreendidos por um chão subitamente inclinado, enlameado e viscoso, por onde começaram a escorregar vertiginosamente sem que nada pudessem fazer para se deterem. - Cuidado!!!- gritou Mig. Catrapum! O túnel acabara repentinamente e saíram todos disparados para um clareira, cerca de dois metros mais abaixo, tombando uns sobre os outros, numa enorme confusão de pernas e braços. Quando se começaram a "desatar", contando as nódoas negras e os arranhões e trocando acusações, aperceberam-se que alguém, na sua frente, os olhava alarmado e empunhando uma arma. - Foi então que um tremendo grito ecoou pela selva e espantou todos os animais num espaço de vários metros - Pai!!!!!. - Miguel?! - exclamou o homem deixando tombar a arma das mãos. Mig correu para o pai e abraçou-o com toda a força. - Que saudades, pai! Porque é que estiveste tanto tempo fora?! - Eu explico - trocando abraços e beijos com o filhos e os amigos e cumprimentando os restantes miúdos - na verdade devo uma explicação a todos, principalmente ao Miguel: Tudo começou com o ataque às torres gémeas em Nova Iorque. Hiroshi, um dos muitos membros da Matriz C ... - E o que é isso afinal da Matriz C? - perguntou impacientemente Carina. - A Matriz C é uma organização que tem, neste momento, como principal objectivo evitar os ataques terroristas. Tem muitos inimigos, e é inclusive perseguida pelo FBI, pela Interpol e por outras polícias em todo o Mundo, porque alguns dos seus membros se esqueceram por vezes que os fins não justificam os meios - e, acto contínuo, deitou um olhar de esguelha a Ivone que no entanto não reagiu - Contudo, é temida pelos terroristas e invejada por muitas outras organizações, como o BioDevelop, pois a Matriz C tem grandes recursos, especialmente a nível da informática. Outro dos objectivos da Matriz C, é controlar os efeitos negativos, tanto para os Homens, como para o Ambiente que experiências realizadas em laboratórios como as do BioDevelop possam ter. - Mas porquê Matriz C? - interrompeu uma vez mais Carina. - "Matriz C", porque "matriz" significa modelo e o "c" é a abreviatura de ciência e conhecimento. Ou seja a Matriz C invoca o progresso da tecnologia e da ciência mas virada para o Bem e para a Paz, sem nunca perder de vista a Ética e o Ambiente. Mas, continuando a minha história... Hiroshi que é um dos muitos membros da Matriz (em boa verdade, somos tantos, que não nos conhecemos todos uns aos outros) conseguiu telefonar-me alertando-me que os terroristas iriam aproveitar a confusão do atentado para infringir um duro golpe na Matriz. Muitos dos nossos homens foram, nessa altura, brutalmente assassinados, quase em simultâneo, em vários pontos do Globo. Eu, devido às importantes funções que desempenhava na Organização estava indubitavelmente marcado para morrer. Mas pior ainda, Hiroshi avisou-me que, devido a alguma fuga de informação, os terroristas estavam também no encalço do meu filho. A Matriz C estava descontrolada e pouco ou nada podia fazer naquele momento para proteger os seus. Afinal, aquele ataque fora muitíssimo grave. Tive de agir sozinho, com as influências e os meios tecnológicos que tinha ao meu dispor e que felizmente eram muitos. Fugi apressadamente mas não sem antes apagar o meu rasto. Vendi a casa e apaguei a identidade do Miguel dos Serviços de Identificação Centrais. Com a colaboração de alguns professores e empregados da escola que frequentavas (que pertencem também à Organização e que velavam por ti quotidianamente sem que te apercebesses) e dos amigos que te rodeavam foi relativamente fácil fazer-te crer que ninguém te conhecia. Depois só tive de arranjar uma forma de te retirar rapidamente daquela região antes que tropeçasses em alguém que arruinasse o meu plano antes que o pudéssemos evitar. Felizmente a mensagem que te deixei resultou em pleno. Acredita que deixar-te naquela angústia custou-me mais do que a ti. Acordo frequentemente de noite, banhado em suor, pensando no teu sofrimento. Por vezes, estive tão perto de ti, mas não te podia visitar, porque só conseguiria pôr-te em perigo e à Matriz. Fui deixando ao teu alcance peças de puzzle, com segredos sobre a Matriz, para que tivesses algo com que pudesses entreter o teu espírito e sempre no secreto desejo que descobrisses toda a verdade sobre a Matriz C e sobre o meu paradeiro. Mas, reconheço que nunca acreditei sinceramente que me conseguisses encontrar aqui. - Bem, mas cá estamos nós!- exclamou Carina. - Suponho que sejas a Carina. - Sim, sou eu e estes são os meus amigos: o André, a Rute e a Isabel. - Muito bem! Agora que as apresentações estão feitas, a Carina, a Rute, a Isabel, o André, o Miguel, o seu pai e eu, vamos embarcar no próximo avião que nos irá levar para casa. - Para mim ainda é um pouco complicado voltar... - começou Álvaro. - Lamento, senhor Pereira, mas terá que voltar connosco. Uma pessoa inteligente como o senhor terá de arranjar uma forma de trabalhar para a sua organização sem ter de se separar do seu filho, não acha? Mig olhou para o pai esperançoso. - Bem, tens razão, eu vou. Logo arranjarei uma forma de ficar perto de vós, agora que as coisas já estão mais calmas. Nem que tenha de me reformar. Na verdade eu também já não aguento mais esta vida de solidão e de constante saudade. Mas não prometo que de vez em quando não tenha de me ausentar durante uns tempos. Miguel não se importava. De um momento para o outro, tudo tinha uma explicação; tudo estava bem; que lhe importavam os terroristas e o perigo?! Tinha o seu pai de volta; fizera uns amigos fantásticos, iria encontrar-se dentro de algum tempo novamente com a sua lindíssima namorada e com certeza que o pai iria comprar uma casa nova, para eles os dois... Mig estava completamente louco de alegria, a sua vida tinha dado uma reviravolta tão grande!... sentia-se flutuar. Carina, Rute, Isabel e André estavam igualmente encantados, tinham conseguido o seu objectivo. Ivone e Rodrigo de mãos dadas olhavam-nos, com um sorriso. A única coisa que lhes trazia uma certa tristeza, era terem de deixar tão cedo, nas palavras do André, aquele "mar verde" que era a Amazónia. Mas que interessava isso, estavam todos felizes e teriam muito mais aventuras juntos... e isso era o que importava.
Joana Fonseca Seabra |