Isabel Alçada veio à nossa escola PDF Imprimir E-mail
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Quinta, 21 Junho 2007

No dia 7 de Maio tivemos a honra e o privilégio de receber na Escola a escritora Isabel Alçada.

O convite à escritora foi endereçado pelo Centro de Recursos Educativos da nossa Escola e está relacionado com o PLANO NACIONAL DE LEITURA.

Foi um momento alto na vida escolar dos nossos alunos do quinto ano.

A receber a escritora estiveram presentes elementos do Conselho Executivo, professores de Língua Portuguesa, em especial os professores que leccionam o 2º. Ciclo, que seleccionaram nas suas turmas de 5º. Ano alunos, que tiveram a tarefa de colocar as perguntas à ilustre convidada.

A escola preparou-se para receber condignamente a autora que os jovens deste país elegeram sua preferida.

Foi feita uma exposição alusiva à obra da escritora, com trabalhos dos alunos, com imagens das personagens e recriação de ambientes das suas obras, desenhos feitos pelos colegas responsáveis pela montagem de exposições.

A conversa informal da escritora com a plateia que a recebeu é difícil de reproduzir na íntegra pois, embora muitas das suas palavras estejam relacionadas com as perguntas que lhe iam sendo formuladas pelos alunos, a fluência das respostas, o entrelaçar dos assuntos, o carácter comunicativo direccionado para "miúdos" de 10 anos, com constantes avanços e recuos, não é propriamente um tipo de texto fácil de transformar em entrevista formal.

Assim, ouvimos atentamente a gravação feita e vamos transcrevê-la com as limitações sentidas, apresentando desde já as nossas desculpas pela possível "infidelidade" de algumas palavras.

No momento em que iniciou a sua "conversa", Isabel Alçada manifestou a sua satisfação por estar a ser "tão bem recebida". Vamos passar a transcrever algumas das suas palavras: " É grato para uma pessoa que chega a uma escola encontrar tudo de uma forma tão bem organizada. Eu vim falar com os meus leitores. Deparei com coisas que me encantaram. Por exemplo, as personagens de "Uma aventura" em tamanho natural, as pessoas a conviverem com elas. Além disso uma exposição onde estão presentes vários autores. Ver o meu nome junto ao nome de Luís de Camões... Emocionou-me."

Uma frase que não podemos deixar de destacar e que foi, em seguida, pronunciada por Isabel Alçada: "Gosto de Bibliotecas como gosto de pastelarias. Só que ler não faz mal a nada e faz bem a tudo."

Pergunta - Quando era pequena lia muito?

Isabel Alçada - Quando era muito pequena, quando comecei a aprender a ler, a professora era escritora. Líamos histórias na aula, o que na época não era habitual. Para aprender História de Portugal, a professora começou por nos contar, a mim e aos meus colegas, a formação de Portugal através da história das duas irmãs, D. Teresa e D. Urraca.

Pergunta - Como ganhou o gosto pela escrita? Com que idade começou a publicar livros? Costuma escrever com a Ana Maria Magalhães. Como se conheceram? Por que razão decidiram escrever em conjunto?

Ainda na escola, li a história do príncipe Sapo que nos remete para o relacionamento homem/mulher. E aí gostei tanto da história que pensei que gostava de escrever. Escrevi histórias um bocadinho macarrónicas. Fui treinando, mas não pensava ser escritora. Na verdade, pensava ser aviadora. Eu gostava de guiar aviões, mas não consegui tirar "a carta" de avião... Depois pensei ser professora e adorei dar aulas. E nessa actividade pensei ser escritora, quando um dia, com a Ana Maria Magalhães decidimos escrever para os nossos alunos. Eles gostaram e aí decidimos escrever mais. Não fui escritora por ter querido ser. Mas fui escritora por ser professora. A ligar uma coisa à outra. Escrever para pessoas mais novas.

Pergunta - Quais os temas sobre os quais preferem escrever? 

Isabel Alçada - As histórias que escrevemos, a Ana Maria Magalhães e eu, foram pensadas tendo em consideração os nossos alunos e o que eles gostavam de ler: acção e mistério. Porque nós sabemos que os alunos de 5º. e 6º. ano, (que eram os alunos que tínhamos na altura), gostavam de histórias de acção e mistério, porque são histórias com ritmo rápido e também gostavam de histórias em que as personagens fossem da idade deles. As primeiras histórias eram pequeninas. A primeira só tinha duas personagens, mas tinha lógica. Uma história tem estrutura própria. Tem um início, um pico, uma reviravolta e acaba tudo em bem, porque era o que nós queríamos. Eu detesto histórias que acabam mal. Bastam as histórias da vida para acabarem mal. As minhas histórias têm tudo para fazer as pessoas sentir-se emocionadas e acabam bem. A pouco e pouco fomos escrevendo histórias maiores e um dia lembrámo-nos de publicar.

Pergunta - Como se faz para publicar um livro? Já publicou muitos livros?

Isabel Alçada - Muitos livros. A Ana e eu começámos por mandar o original para a editora e a editora publica. Mas ainda há muito trabalho. É preciso rever, estudar como o livro fica melhor e depois publicar. Eu e a Ana já publicámos mais de 100 livros. E vocês compreendem que nós temos de trabalhar muito para escrever histórias. Gostamos muito de escrever mas é preciso muito trabalho e disciplina para haver resultado do nosso trabalho.

Pergunta - Como organiza o trabalho?

Isabel Alçada -  Quando estamos a trabalhar, estamos a trabalhar, não nos pomos a falar uma com a outra. Mas também conversamos sobre a nossa vida ou sobre outros assuntos. Há tempo para tudo. Se pensarmos bem. Quantas horas uma pessoa tem no seu dia? É igual para todos? É democrático? A não ser que haja pessoas danadas que roubam tempo às outras, que obrigam as outras a usar o seu tempo para benefício delas. E nós temos de pensar se quando nos pedem uma coisa é para benefício de todos. Se for só para o benefício de um acham que o devemos usar? Temos de pensar muito bem como usamos o nosso tempo. A não ser que seja a nossa mãe a pedir-nos uma coisa. Andar o dia inteiro de skate é produtivo ou não é produtivo? É produtivo, claro que é. Mas se fosse eu, acham que era produtivo? Claro que não. Ainda me arriscava a partir os ossos. Temos de pensar como usamos o tempo. Se andarmos o dia inteiro de skate, acham que estamos a organizar bem o nosso tempo? Dá prazer, é claro que dá, mas não podemos ter uma única actividade na nossa vida. Temos de nos esforçar para organizar o nosso tempo. Aqui na escola é muito importante o tempo para estudar. Se não estudarem acham que terão uma boa vida? Não podem ter. Se vão estudar e se distraem é uma patetice porque só perdem tempo. O pensamento é livre mas temos de organizá-lo. Pensem que é deste modo que conseguimos.

Pergunta - Tem filhos?

Isabel Alçada - Tenho uma filha já muito crescida e dois netos. O mais velho tem 12 anos. Ontem estivemos a falar ao telefone e tenho a dizer que estivemos a discutir ao telefone as eleições em França, pois ele estava a ver na TV, e como não estamos na mesma casa, falámos do assunto pelo telefone. Falámos dos candidatos Ségolène Royale e do Sarkosy. Alguém viu? ... ( A um longo silêncio, seguiu-se da parte de um ou dois alunos a resposta: - Não! Não me interesso por esses assuntos.). O meu neto mais velho é dos que está interessado nas eleições em França, ganhou o Sarkosy, mas para os portugueses que vivem em França teria sido melhor que tivesse sido a Ségolène.

Pergunta - Os seus filhos gostam da sua profissão?

Isabel Alçada - A minha filha desde pequena que gostava muito de ler, eu até me irritava porque ela não gostava de ver nenhum programa de televisão. Porque ler é como mergulhar numa piscina ou no mar. Sentava-se a ler em frente da televisão, lia, levantava os olhos, olhava e voltava a ler. Os meus netos também gostam muito de ler. O mais velho gosta mais de livros de ciências e o mais novo de livros de aventuras. Eles gostam que eu vá todos os dias a casa deles vê-los, só que já compreendem que eu não posso ir todos os dias, tenho os meus afazeres. Mas eu gostava de lá ir todos os dias. Os meus netos também gostam muito de praticar desporto. E vocês gostam de praticar desporto? A pergunta é para os rapazes e para as meninas. Vocês sabem que o desporto é muito importante para a saúde. Praticar desporto é indispensável para crescer de forma saudável. Sabem que a leitura é como se fosse o desporto do cérebro? Não acham que é um bom slogan?

Pergunta - ....?

Isabel Alçada - Espera um bocadinho! Senta-te bem, para estares mais sossegadinho! Sabes porquê? Eu percebo-te muito bem porque quando era aluna, era exactamente assim, nunca estava sossegada na cadeira. Mas, tens de fazer um esforço, porque enerva os outros ver as pessoas sempre a mexer. Temos de ter cuidado e pensar que estamos a enervar os outros.

Pergunta - As personagens de UMA AVENTURA são as mesmas?

Isabel Alçada - Foi uma aventura escrever o livro que se chama UMA AVENTURA NA CIDADE. Mas era com estas mesmas personagens. Só que agora no último livro, o ilustrador resolveu actualizá-las, são mais modernas, o desenho está mais moderno. O Pedro estava com uma roupa que se usava quando começaram a sair as histórias e agora mudou. As modas mudaram.

Pergunta - Qual o primeiro livro que publicou?

Isabel Alçada - UMA AVENTUARA NA CIDADE foi o primeiro livro, passa-se em Lisboa embora não seja referido o nome da cidade. Quando nós estávamos a escrever o primeiro livro... Vamos ver se adivinham quantos livros queríamos, pensávamos nós escrever? Quando se começam as coisas não se sabe muito bem como vão continuar. Quando escrevemos o primeiro livro, tivemos de arranjar um editor, esperar pela reacção dos leitores. É sempre assim quando se começa uma coisa.

Pergunta - É preciso muito tempo para escrever um livro?

Isabel Alçada - Cerca de dois meses. Vocês acham muito tempo? Sabem, é que para os mais velhos a noção de tempo é diferente. Para escrever um livro uma aventura leva cerca de dois meses. Por exemplo, escrever UMA AVENTURA NO BOSQUE levou esse tempo. É passado em Sintra, conheço bem a terra e a Ana também, por isso demorou pouco. Tínhamos de escrever quatro horas todos os dias, nesses dois meses. Ficámos estoiradas depois de escrever quatro horas de seguida, mas ficámos contentes.

Pergunta - Escreve quatro horas seguidas?!

Isabel Alçada - Sim, seguidas! Menos aos fins-de-semana, claro, porque temos de estar com a nossa família, senão ficavam furiosos. E nós também gostamos de estar com eles. Mas durante a semana, nesse período em que trabalhámos em UMA AVENTURA NO BOSQUE, nós conseguimos fazê-lo em dois meses. Agora demoramos sempre mais tempo a escrever os livros, porque não temos as tardes todas para escrever.

Pergunta - Tem muitos fãs?

Isabel Alçada - Fãs!!!? Fãs. Tirando vocês não sei. Sabes porque me estou a rir? Eu vou-te explicar. Não sei, filha, não sei. Quer dizer, eu sei que temos muitos leitores e é uma alegria para nós sabermos que as pessoas gostam do que nós fazemos, em todas as circunstâncias da vida, não é? É, queridos! Até há um que está de joelhos. Deixa-te estar, não estás mal, estás sossegadinho, mas põe-te mais à frente para me ouvires melhor. A propósito de te teres posto de joelhos, lembro-te que no tempo da monarquia, os embaixadores quando iam a audiências, com o rei ou com a rainha, como não se podiam sentar punham-se de joelhos.

Pergunta - As personagens da colecção UMA AVENTURA foram inspiradas em figuras reais?

Isabel Alçada - O Pedro era muito bom aluno, sabia muitas coisas, via sempre os telejornais, lia, estudava e era concentrado.

Pergunta - A série televisiva UMA AVENTURA é inspirada nos seus livros?

Isabel Alçada - Sim, é inspirada nos nossos livros. Está em filme e também vão passar para vídeo. O Chico também era nosso aluno, na escola aterrorizava todos. As gémeas também eram nossas e tinham um caniche. O João também era aluno da mesma escola mas de outra turma e tinha um cão. São as personagens principais. As secundárias são: Charlène Leão que é inspirada em várias pessoas que conhecemos, pessoas simpáticas e bonitas, como a professora Raquel, que é representante da Câmara de Sintra. As personagens simpáticas são sempre inspiradas nas pessoas que conhecemos. Para os bandidos, não nos inspiramos em pessoas simpáticas.

Pergunta - Quais os assuntos que mais a inspiram a escrever?

Isabel Alçada - Escrevemos sobre diversos temas. Os temas que não me interessam a mim, poderão interessar a outras pessoas. Temas que sejam agradáveis e divertidos. A vida não é para nos preocuparmos com coisas desagradáveis. Os bandidos entram para mostrar o lado desagradável da vida. Uma pessoa pode ser boa, fazer coisas boas para si e para os outros e depois transformar-se em bandido. Os bandidos querem ter benefícios próprios sobre os outros.

Pergunta - Em quem se inspira o Chico?

Isabel Alçada - De certo modo é inspirado nas máscaras do meu neto, um dia apareceu vestido de Zorro e quando chegámos à escola, havia montes de Zorros. Eu adorava mascarar-me quando era miúda, mascarava-me de espanhola. Outra máscara muito usada na altura era o disfarce de holandesa, com sapatos de madeira. Adorava máscaras e em minha casa há máscaras que não queiram saber! Saias de todas as cores, panos para fazer turbantes... Vão todos a minha casa buscar máscaras, mas têm de ter cuidado para ver se não as perdem... Mas, se perderem não faz mal porque no Carnaval ninguém leva a mal...

Pergunta - Quando escreve, usa o computador?

Isabel Alçada - Quando começámos a escrever, não tínhamos computador. Então escrevíamos à mão. Levávamos a casa de uma senhora que passava a computador, para depois se levar para a editora.

Pergunta - Tem outra profissão?

Isabel Alçada - Sou professora.

Pergunta - As suas personagens são sempre as mesmas?

Isabel Alçada - São sempre as mesmas. Alunos que nós tínhamos quando dávamos aulas.

Pergunta - Tiveram de pesquisar muito para escreverem os livros da colecção VIAGENS NO TEMPO?

Isabel Alçada - Na colecção VIAGENS NO TEMPO, usámos informação de historiadores que lemos com muito entusiasmo.

Pergunta - Gosta de ser escritora?

Isabel Alçada - Gosto muito do meu trabalho e tenho muitos leitores.

Seguiu-se um período sem perguntas. Isabel Alçada dirigiu-se de novo aos jovens presentes e perguntou se já não queriam saber mais nada. Seguidamente disse mais algumas palavras, mas infelizmente não as conseguimos perceber dado haver um ruído de fundo bastante forte, pelo que só temos a agradecer a sua presença, as suas palavras e a sua simpatia.

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