"Amor materno” PDF Imprimir E-mail
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Terça, 06 Março 2007

A propósito de um trabalho para a disciplina de História, a aluna Dária Sivash da turma 8º.1ª escreveu este pequeno conto sobre a tragédia medieval que foi a "Peste Negra".

 

 

(As personagens históricas, datas e localização em Inglaterra antiga podem corresponder à verdade.)

 

 

 

 

Ano de 1345. Algures nos arredores de Bristol, Inglaterra.

Era uma manhã fresca de Outono, coberta pelo nevoeiro pesado que descia da serra próxima da minha aldeia. O sino batia às seis da manhã, a hora de ir trabalhar para as terras de um nobre senhor que veio, há dez anos atrás, com a sua esposa, de Londres, para se instalar em Bristol. Mas as terras, que lhe foram dadas pelo nosso rei, encontravam-se ao redor da cidade. Sir James, era esse o nome do nosso patrão. "Nosso" porque não apenas eu trabalhava para ele, também o meu marido o fazia. Fazíamos tudo para sustentarmos os nossos três filhos e a velha senhora, que, por piedade, deixámos ficar a viver na nossa casa.

Vestindo-me, saí para o pequeno quintal que ficava em frente à casa. Esse quintal era dividido por uma rede de madeira que dividia o nosso com o dos vizinhos.

- Bom dia, Emma! - saudou o vizinho, o velho Mr. Kail.

- Bom dia, como vai? - respondi-lhe.

- Ah! Vai-se andando, - sorriu ele - a velhice leva a melhor!

- Não diga isso, o senhor ainda está na flor da idade! Tem a vida toda pela frente! - ri-me.

- Bom, não sei se tenho, Emma! Andam a falar por aí que em Bristol morrem gentes por uma estranha doença. Dizem que foi trazida do continente!

- Que doença, senhor? - perguntei amedrontada. - Espero que não se trate da Peste Negra! Nas nossas ilhas, dizia-se, não houve esses casos. Dizem que o Senhor nos protegeu...

- Ó filha! No continente morre povo e pensas que não há pecado aqui, nas ilhas? Deus é testemunha do que o governo anda aí a tramar! Mas o mal nisso é que a raiva do Nosso Senhor diz-se em nós e até nas almas puras, como crianças!

- Mas quem lhe falou disso, Mr. Kail? - a ideia de tudo aquilo ser verdade começava a preocupar-me. Quis falar da doença contagiosa que destruía o povo e que só se salvam aqueles que realmente, com o coração apurado, aceitam a vontade do Nosso Pai!

- Emma! Ouvi almocreves a falarem das novas em Bristol, que não é longe daqui, filha. Falavam que morre o povo, muitos mesmo... a doença, a tal Peste Negra, passa de cidade para cidade, de aldeia para aldeia. Leva todos, sejam eles reis, nobres, religiosos ou simples povo, como nós, filha! Os padres falam que é a raiva do Senhor, falam que a doença mata todos para nos demonstrar que somos iguais. E não há cura, não há, infelizmente...- lamentou Mr. Kail.

A manhã que me parecia feliz ou, talvez, normal, como as outras todas, começava a encher-se de preocupações e nervosismo.

- Bom dia, William! - cumprimentou-o Mr. Kail. - Estávamos aqui a tratar das novas na cidade de Bristol!

Eu não liguei à chegada do meu marido e, sabendo que já me atrasava as colheitas, apressadamente, questionei Mr. Kail:

- Senhor, mas sabe como reconhecer a doença?

- Que doença? - perguntou Bill ( William ) rindo-se sem se aperceber do que nós falávamos.

- Diz o povo, filha, que aparecem pelo corpo manchas negras, as pessoas começam a tossir deitando sangue pela boca. Sabes, diz-se que foi o Nosso Pai que fez isso para que as pessoas parassem de dizer disparates magoando os outros, por issso castiga-as fazendo-as deitar o sangue da boca. Diz-se, também, que a morte é dolorosa, aparecem feridas sangrentas no pescoço e as pessoas morrem suplicando aos Céus que a vida termine mais depressa, pois não aguentam as dores... 

- Não é da Peste Negra que se trata aqui? - perguntou Bill. - Então diga-vos uma coisa: aqui não existe a Peste! Não na Bretanha!

- Bill, tu não percebes... - tentei intervir.

- Acalma-te, mulher, e vai trabalhar! E o senhor tente ouvir menos intrigas que as velhas inventem!

- Mas, Bill, isso é verdade, é grave! Não podes julgar assim o Senhor, nosso Deus!

- Já te disse para ires trabalhar e deixares-te de tretas!

Zangada com a burrice do meu próprio marido, preocupada, fui aos campos, colher a cevada que era pouca. Eram tempos muito maus para a agricultura. Quase todos os dias chovia, o que fazia os produtos apodrecerem e não crescerem.

Por volta do meio-dia, vieram dois filhos meus trazer-me pão e um pouco de leite para o almoço. Dan era o meu segundo filho e a mais pequena chamava-se Kate.

- O Jonh?! - perguntei pelo meu filho mais velho que tinha catorze anos.

- Está a ajudar o pai, foi recolher lenha para a semana.

- Mãe, podemos ir brincar com os filhos de Mrs. Brown?

- Isso fica longe, vocês perdem-se!

- Não, mãezinha! Vá lá, deixe lá!

- Pronto, mas quero-vos em casa até ao pôr-do-sol!

- Sim, claro! - já me gritavam de longe, correndo pelos campos.

- Pestinhas! - sorri. Amava-os tanto que pensar na doença fazia-me doer o coração.

- Ah! Eles são todos iguais! Brincam, que é bom! O teu mais velho nem teve infância... - falou Jane, uma amiga que trabalhava nos campos comigo.

- Tens razão, o Jonh ajudou-nos imenso! Fui demasiado exigente com ele.

- Ah, Emma já viste que se fala de certa Peste vinda do continente? Que horror! Que o Senhor nos proteja e às nossas famílias!

Fiquei calada, não comentei nada. Já me assustara demasiado por isso.

Naquele dia, ao jantar, aborreci-me com Bill. Ele achava aquilo uma mentira. Mrs. Anderson, a velha senhora que morava connosco, ficou para comentar o caso com seriedade. Ela propôs fazer uns rituais para a protecção da doença. Foi o que fizémos, no dia seguinte. Cada um de nós pendurou no pescoço um fio com várias ervas mágicas que nos protegiam da Peste (no início, Bill resmungava e recusava mas, acabou por obedecer).

Passou uma semana. E um dia vi a minha ajudante, Jane, a tossir deitando sangue.

- Jane?! - gritei. Ela caiu. Nas suas pernas, braços e cara encontravam-se manchas negras. Ela ardia em febre.

- Emma! - chorava ela. - Eu não quero morrer! Não quero!

- Vem! Eu levo-te à igreja. Lá o Senhor te protegerá.

Ajudei-a a andar até à igreja que ficava perto dos campos. O Padre recebeu-a e ajudou-a a deitar. A mim mandou-me embora, pois não queria que eu apanhasse a doença.

Fui-me embora. No dia seguinte Jane morreu. A nova espalhou-se rapidamente pela aldeia, Bill, depois de reflectir muito, propôs-me o seguinte:

- Tens que ir até Sir James e dizer que te é difícil trabalhares lá sozinha, já as duas eram poucas. Obriga-o a subir o teu salário ou Sir Barimor fica satisfeito, pois necessita de mão-de-obra e está disposto a pagar qualquer salário.

- Como é que sabes? - perguntei, e depois apercebi-me.- Tu foste falar com Sir Barimor?

- Não! Ele é que me procurou e propôs isso. Disse que precisava de trabalhadores, pois já lhe morreram muitos, e está disposto a pagar bem!

- Não Bill! Eu sou honesta e...

- Não é de honestidade que se trata...

- Eu não vou e assunto fechado! - virei-me e fui-me embora.

Apressei-me até à igreja. Pelo caminho encontrei muitos vizinhos que iam na mesma direcção. O Padre pregava o sermão na rua, pois já não cabiam todos lá dentro. Todos os dias morriam pessoas, era esta a razão da invasão da Igreja. O povo pedia perdão, mas acabavam todos na mesma cova, porque não dava jeito cavar sepulturas todos os dias.

Fiquei um pouco e fui para casa. Ao entrar em casa, deparei-me com Mr. Kail. Esse chocou-me com a notícia. Decidira não trabalhar, pois sabia que um dia ficaria contagiado e por isso não valia de nada ir para o emprego.

- Cheguei! - disse ao entrar em casa. Ninguém respondeu. Só apareceu Mrs. Anderson com ar triste.

- O Bill, onde está? - perguntei.

- Levou o cavalo, deve ter ido para a cidade... mas isso não é o pior...

- Então? - assustei-me - Algo com as crianças?

Entrei para o quarto, estava lá Jonh, vermelho, a transpirar. Tinha um pano molhado na testa para baixar a febre.

-Jonh, filho! Ò credo! - sentei-me ao lado dele na cama. Pousei-lhe a mão na testa, estava a arder em febre. - Ó filho, onde é que ficaste assim?

-Mãe...

A voz dele estava rouca e quase não se ouvia.

- Mãe... por favor! Eu estive hoje a ajudar o padre com as crianças doentes...

-Ó filho! - fiquei quase a chorar. - Querido... não...

Percebia muito bem que ele tinha apanhado uma doença e rezava para que não fosse a Peste Negra. A senhora idosa pegou-me no braço e levou-me do quarto.

- Emma, ele tem manchas... negras...pelo corpo... Dane e Kate ficaram na cozinha, receei que...

Ela calou-se assustada mas eu zangada com um destino tão injusto completei a frase:

- ... que fosse a Peste Negra! O Nosso Pai e Senhor vê a injustiça das suas obras! Esta criança... a minha criança, inocente, é obrigada a pagar pelos nossos pecados!... (Chorava desesperada).

- A senhora! A senhora faz feitiços! Porque não o salva?! Porquê?!- gritei e, percebendo que os meus dois filhos ficaram a escutar a conversa, baixei a voz. - Porque o faz por outros e não o faz por nós?!

- Eu faço, minha querida! É claro que faço! Tentei salvar alguns dando-lhes recomendações, mas esses morreram. - chorava Mrs. Anderson também. - Vinham da aldeia vizinha, sabes, mas não fiquei com eles, pois receei que me pegassem a maldição, essa Peste Negra...

- Bill já sabe? - perguntei, regressando ao quarto, mudando o pano molhado em água e vinagre para baixar a febre.

- Logo que disse que Jonh estava doente, ele pegou no cavalo e foi-se embora.

- Fique com o Jonh. Eu peço umas ervas à vizinha. Dizem que as ervas dela curam a Peste, é um bom feitiço...

- Ó filha! Ela cobra muito dinheiro...

- Não me interessa! Desde que devolvam a saúde ao meu filho, pagar-lhe-ei tudo o que tenho! - rapidamente procurei as poupanças e saí a correr.

Corri até ao fim da rua, passando próximo da igreja no momento em que os monjes levavam os corpos dos falecidos com terríveis marcas sangrentas no pescoço. Enrolei-me melhor no lenço que trazia nas costas para que me protegesse da terrível brincadeira de Satanás.

Ao chegar a casa da Laura Brown, bati à porta que se abriu sozinha. Quando entrei, encontrei dois filhos dela no chão a chorar. Segui até ao quarto e aterrorizei-me com a imagem dela que provocou em mim um grito horrorizado. O corpo de Laura estava pendurado com uma corda ao pescoço. Ela suicidara-se! E, aproximando-me, reparei nas manchas negras que se espalhavam pelo seu corpo. Logo aí percebi que os feitiços nem a ela tiham salvo.

Chamei os filhos dela para irem comigo. Verifiquei. Pareciam não ter a doença.

Quando cheguei, contei tudo a Mrs. Andersen. Ela, chocada, pôs-se a folhear o seu livro de feitiços ( era uma pessoa culta que sabia ler e escrever; enquanto que o povo simples não tinha oportunidades dessas), mas eu já sabia que aquilo não nos ia salvar. O que podia fazer uma bruxa contra o trabalho do Diabo?

Comecei a arrumar as roupas dos miúdos mais novos e do meu marido em sacos de sarapilheira. Em panos pus queijo e carne conservada em sal; também guardei um jarro de leite e pão que tirei do forno, feito por Mrs. Anderson.

- O que fazes, Emma? - perguntou ela entrando na cozinha.

- Mrs. Anderson, arrume as coisas de que necessita! Preciso que a senhora vá com o Bill e os miúdos para longe daqui. Instalem-se em Mighlands, na Escócia. Lá para os lados de Glenfinen. Vive por lá a minha irmã mais velha com o marido. Acredito que ela cuidará de vós. E tenho a certeza que a Peste não chega aos montes da Escócia. Se para lá forem o mais depressa possível, estarão a salvo.

- Mas, Emma?! E tu? O Jonh?

- Eu fico aqui com ele! Se conseguir, curá-lo-ei, se não...

Lágrimas inundaram-me os olhos de novo, mas a esperança que seria capaz de curá-lo permanecia.

-  Eu não deixo o meu filho aqui! E também não quero que os outros paguem por isso!

- Emma!...

- Não! Mrs. Anderson! Não deixo que esta maldição destrua o amor que temos um pelo outro!

- Que gritaria é essa?! - ouvi a voz de William e corri para abraçá-lo fortemente, o que o chocou um pouco.

- O que aconteceu? Ah! Tenho aqui o triplo do teu salário! Nem vais acreditar!

Sem dizer muito mais, Sir James entregou-me o dinheiro e mandou-me regressar!

- O Jonh está a morrer! - desatei a chorar de novo.

- Como?! Pensei que fosse só uma constipação...

Bill sentou-se à mesa e agarrou a cabeça com as mãos.

- O que fazemos? Emma, querida, o que fazemos?

- Bill... eu já pensei. - sentei-me ao lado dele e abracei-o - Eu quero que tu e Mrs. Anderson levem os miúdos para a Escócia e lá ficarão, em casa de Mary e de Jacob, a minha irmã e o meu cunhado, e....

- Estás louca?! - gritou Bill. - Mas tu pensas que deixo a minha amada mulher e o meu filho aqui, destinados à morte?

Vi nos olhos dele o brilho das lágrimas que ele tentava esconder, mas eu sabia que nem eu, nem ele iríamos achar melhor solução. Apenas era doloroso separarmo-nos para sempre.

- Levas os filhos de Laura Brown. Eles estão aqui, pois ela suicidou-se...

- Amo-te Emma! Eu não sou capaz de pensar que não voltarei a ver-te a sorrir, a correr pela floresta, a dançar batendo um bom ritmo até o chão estremecer... eu não vos quero deixar!

- Bill, vocês são a minha vida, mas não deixo o Jonh! Assim é melhor!

- Eu não voltarei a ver-te, não é?

- Diz-lhes, quando forem grandes, que os amei mais do que tudo...

E assim foi. Bill preparou a carroça e despedi-me deles, para sempre, como parecia. A única coisa que me animava é que os outros estariam a salvo, pois eu sacrificava-me por eles...

Voltei para Jonh.

- Como te sentes, querido?

- Mãe, eles deixaram-nos por minha causa, não é? Eu... eu tenho culpa!

- Não! Ninguém tem! Eu fiquei porque te amo e eles partiram pela mesma razão!

- Vou morrer, não é?

A essa pergunta eu não respondi. Escondi as lágrimas e disse:

- Não! Eu não deixo!

Todos, ao saber que Jonh estava infectado, se afastaram de nós. Não fui trabalhar. Fiquei a tratar dele. Fazia tudo o que podia. Recorria às orações, à água benta, às cruzes, aos talismãs, às ervas mágicas, aos feitiços, aos toques dos sinos e aos fumos de óleos que custaram quase tudo o que tinha, mas era em vão. Jonh piorava cada dia.

Deus não teve piedade de nós, mas eu salvei o meu filho da morte lenta e dolorosa, comprando veneno para ele e para mim, pois não seria capaz de matá-lo.

- Bebe, filho, e a dor não te incomoda mais!

- Amo-te, mãe!... - disse adormecendo.

Logo também tomei eu o veneno.

O dia terminava negro como o destino, como o fumo que não salva ninguém, como a maldição que matou milhões de almas, como estas.

William, Mrs. Anderson e as crianças viveram na Escócia sem ficarem infectados pela Peste Negra. Os meninos Don e Kate creceram descobrindo o destino heróico da sua mãe e perdoaram-lhe por tê-los deixado, pois sabiam que amava o irmão, tal como os amava a eles.

Muitas mães abandonaram cruelmente os filhos, ou vice-versa, mas não Emma Watson, que morreu para salvar o filho mais velho.

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